quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Vá de retrô!

Finalmente 2009 chegou! Hora de botar ordem na casa. Dieta? Exercício físico? Promessas? Claro que sim. Mas antes eu faço uma viagem no tempo e volto ao (já) longínquo 2008. É isso mesmo que você tá pensando, seguindo a tradição a Besta começa o ano comentando os principais álbuns lançados no ano passado. Mas antes, recapitulando: 100 anos de imigração japonesa/50 anos de Bossa Nova/50 anos de Madonna/50 anos de Micheal Jackson (auuh!). A novidade esse ano é a adição de discos nacionais, até porque a produção musical brasileira vai muito bem, obrigado. Bom, segue aí o meu Top 10. Faça um favor à você mesmo e corre atrás:

The Odd Couple, Gnarls Barkley {Depois do bombástico álbum de estréia o estranho casal retorna ainda melhor nesse segundo trabalho. Cee-lo e Danger Mouse conseguem ir além em suas funções, extrapolando texturas sonoras e elevando o padrão para outros artistas e produtores}.

Slime & Reason, Roots Manuva {Envolvente mistura de gêneros: grime, dancehall, club-rap, entre outros. O clima aqui é urbano, esfumaçado, tétrico e verborrágico. Verdadeiro som de periferia do novo milênio. Pra quem gosta existe ainda um disco duplo com ensolaradas versões dub}.

Many Things, Seun Kuti {O filho (mais novo) do Fela quebra tudo em seu debute em pleno século XXI. Com apenas 26 anos o músico consegue transportar a gênese do gênero para dias atuais, sem perder a força musical e/ou conteúdo das letras. Seun é acompanhado pela segunda banda do pai, a Egypt 80, e mostra com quantos sopros se faz um Afrobeat}.

New Amerykah Part One, Erykah Badu {Disco conceitual cabeçudo que tinha tudo pra dar errado. Mas a mensagem é diluída em boas doses de funk, hip-hop e soul, e o resultado final é excelente. Diferentes produtores dão forma e peso aos mandamentos do baduísmo, ecos de Motown, Funkadelic e J. Dilla}.

Dear Science, TV on the Radio {Talvez o melhor disco do ano no (indie) rock. Groove poderoso, clima envolvente, conceitos amarrados. O satélite dos caras está voltado para estrelas de galáxias distantes; enquanto que os dois pés continuam atolados na terra molhada}.

Rising Down, The Roots {Quando vários dos integrantes resolveram abandonar a banda parecia que o barco afundaria. Mas aí os remanescentes (o cabeça do grupo, o baterista ?uestlove e o coração, o MC Black Thought) voltam trazendo esse petardo sinistro . As centenas de participações especiais não atrapalham, pelo contrário, mostram o quanto de munição ainda sobra no cartucho}.

London Zoo, The Bug {É até pleonasmo colocar esse álbum na lista de melhores porque ele já apareceu (ou vai aparecer) em tudo quanto é retrospectiva. Mesmo assim o disco impressiona pela contemporaneidade e universalidade. Tanto faz. Pra quem gosta de dub tribal ou rave jamaicana. Ou isso que chamam de dubstep, que na verdade é o velho dub feito para as pistas. E eu que achava que clubber não escutava reggae}.

Vitrola Adubada, Buguinha Dub {Produtor musical, agitador cultural, DJ e mestre da fertilização natural, o pernambucano Buguinha estréia cercado de amigos próximos para soltar uma bolacha pesada e necessária. Ah, engana-se quem acredita que só tem dub. Pedrada sobre pedrada}

Carnaval no Inferno, Eddie {Lançado no final do ano, o disco supera o anterior (Metropolitano) por trazer composições mais complexas e incorporar outras influências ausentes nos trabalhos anteriores (como o frevo e a bossa). Pode não superar os primeiros trabalhos do grupo, mas mostra novas direções à (sempre fina) mistura de ritmos dos caras}.

Estudando a Bossa, Tom Zé {Bem-humorada homenagem a Bossa Nova. O baiano/paulista encarna o “carioca inspirado” nas composições e nas letras (algumas em parceria com Arnaldo Antunes). O músico ainda é acompanhado por um dream team de cantoras nacionais; novas e veteranas}.

Menções honrosas:

Modern Guilt, Beck {A produção do rato (no ano do rato!) resultou no melhor disco do cientoartista desde Odelay}.

Japan Pop Show, Curumin {O baterista/sambista continua sua tragetória com esse ótimo segundo disco. E me falaram que agora tá tocando na rádio. Demoro}.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O FILHO DO HOMEM


"A mente adora imagens cujo significado é desconhecido, uma vez que o próprio significado da mente é desconhecido"
René Magritte (1898-1967)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

The year of the mouse

Sei que ando ausente. Os dias passam na velocidade de um pavio de bomba e o blog fica encostado. Em minha defesa apelo ao senso de final de ano, aquele que diz: trabalho, trabalho, trabalho. Não dá nem tempo pra pensar. Quando menos se espera, pow!, outro final de ano, mais um bloquinho de Lego no castelo, outra peça qualquer da engrenagem de uma peça só... sem contar que dezembro chove; principalmente pra quem vai passar a virada na cidade natal. Antes da chuva, porém, o calor e a seca! Quantos banhos você toma por dia? Pois então, questionamentos fazem-se necessários em momentos extremos. Meditação ajuda, principalmente a técnica do urso. Aliais, foi o polar um dos primeiros a falarem que esse seria “O” ano. Significados variados. O ano passou rápido? Ou será que devagar?

"Se o barato é lento e o processo é louco, deixa eu nagevar sem piloto" filósofo anônimo

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Ode ao Tiroteio

Um dos meus grandes amigos, também conhecido como senhor Prado, anunciou hoje em seu blog que em breve deve encerrar as atividades e cessar-fogo, em função de outros projetos. Nada contra ele correr atrás das paradas dele, mas por favor não pára de escrever em seu espaço tão contundente. O tiroteio já me salvou em vários momentos, como uma rajada de balas incandescentes. Por isso eu digo que fique. Vida longa ao Tiroteio! ... Ah, por conta dessa história toda, acabei lembrando de um poema do inigualável Glauco Mattoso. O rapper pode até estar do lado de cá, mas essas palavras tem muito a ver contigo, mané.

Soneto ao Rapper:

De cor, mulato, pardo, negro, preto.
O branco é simplesmente branco, e só.
Você quer mais respeito, não quer dó.
Quer ser um cidadão, não quer o gueto.

No sul, no Pelourinho, no Soweto,
lutando contra o falso status quo
da máscara, a gravata e o paletó:
A letra é mais comprida que um soneto.

Seu canto já foi blues, quase balada;
Foi soul, foi funk e reggae; agora é bala
perdida em tiroteio de emboscada

Xerife do xadrez, você não cala:
leva a periferia pra parada,
de sola entra no som da minha sala.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Guess who’s coming to dinner?

A Besta voltou! E com uma bagagem cultural pesada. É clichê, mas é verdade: a Europa é o berço da civilização ocidental. Foi lá que Miles Davis pela primeira vez provou o gostinho do reconhecimento. O mesmo aconteceu com Jimi Hendrix, e outros tantos. Não à toa que o velho continente produziu tanto nos últimos séculos.

Logo na chegada, no aeroporto de Lisboa, um emocionado aperto de mão num simpático Herbie Hancock. Para contar pros meus netos. Isso porque eu vinha falando nele nas semanas anteriores. (Ah, em Barcelona ainda ia rolar o reencontro histórico de Chick Corea e John McLaughlin. Desde Bitches Brew os dois não tocavam juntos. Pena que tivemos de seguir o rumo. Torcer pra esse show passar no Brasil).

Ao longo da trip foram muitos museus: renascimento, gaudiísmo, futurismo, surrealismo, cubismo, vangoghísmo, expressionismo, abstratismo, modernismo... O que você pensar a Europa oferece à preços convidativos, pelo menos para os europeus. Acesso direto à matriz.

E é assim mesmo como lhe contaram: tudo muito lindo, limpo, simples e seguro. As coisas funcionam, os policiais são educados, as criancinhas falam francês, as pessoas pedem licença, os gatos ficam parados nas vitrines e as bicicletas de Amsterdam são decoradas com flores, no melhor estilo dutch de se viver.

A única coisa ruim foi o frio, justamente na Holanda. Ainda bem que existem os aquecedores internos. Mas haja saco para colocar todas as roupas da mala e depois ter que tirar no primeiro bar, pra depois colocar tudo de novo.

Voltar e rever os amigos é a parte fácil, o difícil é trabalhar pra pagar o cartão de crédito.
Ps: Agradecimentos especiais à Mari e ao Carlinhos, que mostraram do que a verdadeira Barcelona é feita. Sem palavras para descrever minha gratidão.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

QUERIDOS LEITORES:

A Besta dá um tempo nas atividades geométricas para tirar merecidas férias.

Não me procurem, pois estarei longe da caverna quadrada.

Volto em novembro.

Aos que ficam um forte abraço, uma mordida no crânio e um beijo no cérebro.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Entre o Silêncio e a Brisa: O Quinteto Perdido de Miles Davis.

Fevereiro de 1969. Logo depois de gravar a pedra fundamental do fusion* – In A Silent Way – Miles Davis resolveu dar uma enxaguada em sua numerosa banda de estúdio e sair em turnê de divulgação do mais recente trabalho. Para desespero dos puristas, o novo disco escancarava de vez o romance extraconjugal do trompetista com o rock, ainda que soasse calmo e pacífico (principalmente na faixa-título). A obra antecipava as mudanças por vir. E essas transformações começaram a ser sentidas também nos shows – com “standards” substituídos cada vez mais rápidos por novas composições originais, inclusive de novos parceiros.

Na verdade, as saídas do baterista Tony Willians e do baixista Ron Carter – depois das gravações de In A Silent Way e Filles de Kilimanjaro, respectivamente – abriram o espaço para a chegada de jovens músicos. Estes, iam se acumulando em ensaios e revezando-se nas gravações (no melhor espírito comunitário da época). E Miles gostava daquelas novas figuras cabeludas, faziam-no sentir-se rejuvenescido. Não que ele precisasse. Apesar de ter entrado na casa dos 40, estava no auge da forma física, cultivando o corpo à base de extenuantes treinos de boxe e um perigoso coquetel de drogas (legais e ilegais). Pra poucos.

Ao vivo, resolvera voltar ao consagrado esquema do quinteto de jazz clássico: com dois instrumentos de sopros e três na seção rítmica. Mas de clássico o grupo não tinha nada. Pelo contrário. Queriam quebrar a barreira do som sem precisar entrar num caça militar. Os próprios insistiam em serem classificados como uma banda de rock. Só que não se encaixavam bem nessa categoria. Quer dizer, em nenhuma. No mês março de 1969, depois de quase quatro anos, o The Miles Davis Quintet pisava novamente em um palco em Nova Iorque. Só que nesse meio tempo tudo havia mudado. De um tipo de azul para as cores psicodélicas.

Dentro da mitologia milesniana esse grupo ficou conhecido como o “The Lost Quintet”(ou “The Third Great Quintet”, para os mais entusiasmados) e era formado pelo sempre inspirado Wayne Shorter (sax), o calculista Chick Corea (teclado), o cativante Dave Holland (baixo) e o feroz Jack DeJohnette (bateria). O pertinente apelido deve-se ao fato da formação nunca ter entrado no estúdio para gravar um disco como quinteto, pois só trabalharam juntos em colaboração com outros músicos, em sessões com o próprio trompetista. Assim, durante muito tempo, não houve outro registro senão a prejudicada memória dos fãs.

Em pleno verão de 69, seis meses depois de gravar o último álbum, um grupo ainda maior de músicos trancou-se no estúdio para conceber a obra-prima do fusion – e o segundo disco mais vendido do artista – Bitches Brew. Muitas das composições gravadas surgiram em ensaios e improvisações do novo quinteto, durante as apresentações na primavera anterior. O grupo fixo começava a dar bons frutos. Resultado da química explosiva entre a sólida cozinha e a beleza caótica dos metais. Confluência de ritmos direcionada para além dos limites prováveis. Com Bitches Brew, Miles atinge seus objetivos artísticos quando resolveu embarcar pela primeira vez no colorido ônibus da contracultura.

Enquanto esperava o álbum chegar as lojas era hora de jogar-se novamente nas curvas da estrada. E o grupo não poderia ser outra senão o Quinteto Perdido. Durante meses trabalharam sem parar. Apresentaram-se nos maiores festivais de música e casas de shows da época – ao lado de bandas de rock – para um público muitas vezes alheio à história musical do trompetista. Em abril de 1970, com o lançamento do disco no mercado americano, veio a consagração.

Começo dos anos 2000. Sai It’s About That Time: Live from Fillmore East, a fita perdida do Quinteto Perdido. Gravado em março de 1970, o repertório traz músicas dos últimos discos até então: In A Silent Way e Bitches Brew (ainda que o último não tivesse sido lançado). Um adendo importante: nesse concerto (como em muitos outros) a banda apresenta-se como um sexteto, já que conta com a participação especial do percursionista brasileiro Airto Moreira. Ainda assim, é o mais perto que podemos chegar desse tesouro enterrado sob a areia do tempo.

O registro ao vivo merece destaque por trazer a despedida de Shorter como membro regular da banda (representando também o fim do Quinteto Perdido). O saxofonista saiu para montar o grupo Weather Report, juntamente com o pianista Joe Zawinul. Os outros colegas também aproveitaram o momento para formarem seus próprios conjuntos, tendo Miles (e o fusion) como norte criativo.

O Quinteto Perdido, mesmo com um breve período de existência, conseguiu deixar profundas marcas na história da música. Hoje, podemos notar a influência do conjunto (e das bandas posteriores do trompetista) tanto na música eletrônica quanto no rock e no hip-hop. A polêmica “fase elétrica” foi redimida por DJ’s e curiosos em geral; e atualmente é objeto de culto de admiradores dos mais variados estilos musicais. Miles Davis era um cara do futuro, um visionário. O distanciamento acabou provando o valor de suas experimentações.

*O fusion, verdade seja dita, nasceu uns dois anos antes, no disco de Cannobal Adlerey, 74 Miles Away (1967), em faixas como Directions (composição de Zawinul). Mas devemos frisar que os experimentos elétricos de Miles são praticamente da mesma época, remetendo ao "Segundo Grande Quinteto", e podem ser apreciados em álbuns como Nefertiti (1967), Miles in the Sky (1968) e Filles de Kilimanjaro (1968). Eu chamo In A Silent Way de "A" pedra fundamental porque foi o primeiro disco de um artista de jazz gravado inteiramente com instrumentos plugados. Entendido? Então firmeza.