quarta-feira, 1 de julho de 2009

Abaixo do solo

Só pra não dizer que eu abandonei o barco de vez resolvi escrever. E como muita gente me pergunta o que eu ando ouvindo ultimamente vou abrir o jogo e comentar os discos que não saem do meu HD mental. Se der certo, toda quarta por aqui. Pra começar o álbum Ordem de Despejo, do grupo Subsolo.
Na real esse disco nem é tão novo assim, mas aí só fui escutar esses dias. Os desalojados do projeto Quinto Andar revolvem trocar de ares, mas ao invés de se mudarem para aquela cobertura duplex preferiram cavar um buraco ainda mais fundo no underground do rap nacional. Letras cavernosas flutuam vacilantes sobre bases fragmentadas. Músicas sobre morte, cegueira, depressão, violência e toda sorte que houver nessa vida. Escreveram por aí que parece um tratado sobre a condição do jovem brasileiro no mundo moderno. Sei lá. Mas se você espera uma continuação do antigo grupo esquece. Verdade que ainda existe espaço pra esperança (e algum humor), mas os tempos de zoeira ficaram bem longe no tempo. Provavelmente não vai tocar na rádio nem na festinha da faculdade. Mesmo assim os anos de caminhada e o amadurecimento fizeram bem aos caras. Ninguém ali ainda se ilude. Pé no chão é pouco. Enraizados debaixo da terra. Desce o elevador.

Destaque: o batidão minimalista Rio Babilônia. Ficou curioso? Ouve aqui. Sinistro!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Admite-se blogueiro

Sem experiência prévia necessária
Não precisa saber escrever, nem estar bem informado
Paga-se salário baixo
Favor contatar a gerência
Obrigado

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A Geração Atari

Quando os produtores de cinema de Hollywood forem adaptar “Necromancer” – clássico da ficção científica e bíblia do cyberpunk – eles precisarão contratar para a trilha sonora o produtor alemão Jan Gleichmar (A.K.A. Disrupt), um dos fundadores do selo Jahtari.

A idéia por trás da Jahtari é simples: misturar música jamaicana com a cultura dos games. Pode até parecer brincadeira de criança, mas o negócio é sério. Envolve artistas do mundo inteiro, todos interligados por uma rede invisível de fios e idéias. Algo bem parecido com o futuro relatado no romance.

O apanhado de diferentes produtores trabalhando sob a sombra de uma causa comum faz da Jahtari um dos pólos musicais mais interessantes da atualidade. Fato que pode ser comprovado escutando qualquer um dos inúmeros lançamentos virtuais e físicos (EPs, mixtapes, coletâneas, discos e vinis).

Mas verdade seja dita: essa história de misturar dub com vídeo game não vem de hoje. Um dos grandes expoentes do gênero, o produtor jamaicano Scientist (discípulo de King Tubby), já tinha chamuscado alguns beats de jogos eletrônicos nos idos dos 80, em álbuns como Scientist Meets the Space Invaders e Scientist Encounters Pac-Man.

Disrupt & Cia sabem da dívida com o cientista e também com professor maluco. Ambos foram os primeiros a ousarem ir além dentro de um gênero que começava a dar sinais de estagnação. Porém, os artistas da Geração Atari não procuram simplesmente emular o som desses grandes mestres. Ao contrário, preferem seguir caminhos alternativos ao incorporar influências atuais, vindas de gêneros como a eletrônica, o hip-hop e o próprio dubstep (esse último como uma rua de mão dupla).

Chegaremos em 2010 com o dub revitalizado e mais relevante do que nunca. Parece que a ficção cientifica pode se tornar um documentário.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

PROJETO DHARMA

EU tava ali ocupado com a vida que até me esqueço de escrever por aqui. talvez não tenha nada de bom pra falar e nessas horas manda o senso comum manter a matraca trancada. peixe morre pela boca engasgado com uma mosca, já dizia minha tia.

ESSE ano começou agitado ou é só impressão?

PELO menos pra mim foram vários acontecimentos... e eu nem tive condições de anotar a placa do caminhão. mas pra que se importar afinal? como um mantra maluco tento repetir pra mim mesmo: é melhor ligar o foda-se!

TIPO aquela música da Leme. “vamos aproveitar, gastar o que entrar, sem pensar no que vem meu bem, só com nota de 100”.

ONTEM acabou a luz e o silêncio proclamou-se senhor dos MUNDOS. fazia tempo que aquele sobrevivente não dormia tão bem. nada como um sono acumulado e depois acordar sem despertador.

DIZEM que as paredes tremeram com as luzes acendendo na madrugada. os televisores urraram com alegria contida. mas ninguém se importou com o barulho dos aparelhos.

DEPOIS do susto a maré volta pra encher o rio. levanto por um instante para recolher os frutos trazidos pelo mar. uma estranha sensação invade o quintal de casa.

E VOCÊ? vai bem ou tá tipos esses caras na U.T.I.? Se pã, você morreu e não sabe...

COLOCA essa ilha de volta no lugar!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Vá de retrô!

Finalmente 2009 chegou! Hora de botar ordem na casa. Dieta? Exercício físico? Promessas? Claro que sim. Mas antes eu faço uma viagem no tempo e volto ao (já) longínquo 2008. É isso mesmo que você tá pensando, seguindo a tradição a Besta começa o ano comentando os principais álbuns lançados no ano passado. Mas antes, recapitulando: 100 anos de imigração japonesa/50 anos de Bossa Nova/50 anos de Madonna/50 anos de Micheal Jackson (auuh!). A novidade esse ano é a adição de discos nacionais, até porque a produção musical brasileira vai muito bem, obrigado. Bom, segue aí o meu Top 10. Faça um favor à você mesmo e corre atrás:

The Odd Couple, Gnarls Barkley {Depois do bombástico álbum de estréia o estranho casal retorna ainda melhor nesse segundo trabalho. Cee-lo e Danger Mouse conseguem ir além em suas funções, extrapolando texturas sonoras e elevando o padrão para outros artistas e produtores}.

Slime & Reason, Roots Manuva {Envolvente mistura de gêneros: grime, dancehall, club-rap, entre outros. O clima aqui é urbano, esfumaçado, tétrico e verborrágico. Verdadeiro som de periferia do novo milênio. Pra quem gosta existe ainda um disco duplo com ensolaradas versões dub}.

Many Things, Seun Kuti {O filho (mais novo) do Fela quebra tudo em seu debute em pleno século XXI. Com apenas 26 anos o músico consegue transportar a gênese do gênero para dias atuais, sem perder a força musical e/ou conteúdo das letras. Seun é acompanhado pela segunda banda do pai, a Egypt 80, e mostra com quantos sopros se faz um Afrobeat}.

New Amerykah Part One, Erykah Badu {Disco conceitual cabeçudo que tinha tudo pra dar errado. Mas a mensagem é diluída em boas doses de funk, hip-hop e soul, e o resultado final é excelente. Diferentes produtores dão forma e peso aos mandamentos do baduísmo, ecos de Motown, Funkadelic e J. Dilla}.

Dear Science, TV on the Radio {Talvez o melhor disco do ano no (indie) rock. Groove poderoso, clima envolvente, conceitos amarrados. O satélite dos caras está voltado para estrelas de galáxias distantes; enquanto que os dois pés continuam atolados na terra molhada}.

Rising Down, The Roots {Quando vários dos integrantes resolveram abandonar a banda parecia que o barco afundaria. Mas aí os remanescentes (o cabeça do grupo, o baterista ?uestlove e o coração, o MC Black Thought) voltam trazendo esse petardo sinistro . As centenas de participações especiais não atrapalham, pelo contrário, mostram o quanto de munição ainda sobra no cartucho}.

London Zoo, The Bug {É até pleonasmo colocar esse álbum na lista de melhores porque ele já apareceu (ou vai aparecer) em tudo quanto é retrospectiva. Mesmo assim o disco impressiona pela contemporaneidade e universalidade. Tanto faz. Pra quem gosta de dub tribal ou rave jamaicana. Ou isso que chamam de dubstep, que na verdade é o velho dub feito para as pistas. E eu que achava que clubber não escutava reggae}.

Vitrola Adubada, Buguinha Dub {Produtor musical, agitador cultural, DJ e mestre da fertilização natural, o pernambucano Buguinha estréia cercado de amigos próximos para soltar uma bolacha pesada e necessária. Ah, engana-se quem acredita que só tem dub. Pedrada sobre pedrada}

Carnaval no Inferno, Eddie {Lançado no final do ano, o disco supera o anterior (Metropolitano) por trazer composições mais complexas e incorporar outras influências ausentes nos trabalhos anteriores (como o frevo e a bossa). Pode não superar os primeiros trabalhos do grupo, mas mostra novas direções à (sempre fina) mistura de ritmos dos caras}.

Estudando a Bossa, Tom Zé {Bem-humorada homenagem a Bossa Nova. O baiano/paulista encarna o “carioca inspirado” nas composições e nas letras (algumas em parceria com Arnaldo Antunes). O músico ainda é acompanhado por um dream team de cantoras nacionais; novas e veteranas}.

Menções honrosas:

Modern Guilt, Beck {A produção do rato (no ano do rato!) resultou no melhor disco do cientoartista desde Odelay}.

Japan Pop Show, Curumin {O baterista/sambista continua sua tragetória com esse ótimo segundo disco. E me falaram que agora tá tocando na rádio. Demoro}.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

O FILHO DO HOMEM


"A mente adora imagens cujo significado é desconhecido, uma vez que o próprio significado da mente é desconhecido"
René Magritte (1898-1967)

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

The year of the mouse

Sei que ando ausente. Os dias passam na velocidade de um pavio de bomba e o blog fica encostado. Em minha defesa apelo ao senso de final de ano, aquele que diz: trabalho, trabalho, trabalho. Não dá nem tempo pra pensar. Quando menos se espera, pow!, outro final de ano, mais um bloquinho de Lego no castelo, outra peça qualquer da engrenagem de uma peça só... sem contar que dezembro chove; principalmente pra quem vai passar a virada na cidade natal. Antes da chuva, porém, o calor e a seca! Quantos banhos você toma por dia? Pois então, questionamentos fazem-se necessários em momentos extremos. Meditação ajuda, principalmente a técnica do urso. Aliais, foi o polar um dos primeiros a falarem que esse seria “O” ano. Significados variados. O ano passou rápido? Ou será que devagar?

"Se o barato é lento e o processo é louco, deixa eu nagevar sem piloto" filósofo anônimo

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Ode ao Tiroteio

Um dos meus grandes amigos, também conhecido como senhor Prado, anunciou hoje em seu blog que em breve deve encerrar as atividades e cessar-fogo, em função de outros projetos. Nada contra ele correr atrás das paradas dele, mas por favor não pára de escrever em seu espaço tão contundente. O tiroteio já me salvou em vários momentos, como uma rajada de balas incandescentes. Por isso eu digo que fique. Vida longa ao Tiroteio! ... Ah, por conta dessa história toda, acabei lembrando de um poema do inigualável Glauco Mattoso. O rapper pode até estar do lado de cá, mas essas palavras tem muito a ver contigo, mané.

Soneto ao Rapper:

De cor, mulato, pardo, negro, preto.
O branco é simplesmente branco, e só.
Você quer mais respeito, não quer dó.
Quer ser um cidadão, não quer o gueto.

No sul, no Pelourinho, no Soweto,
lutando contra o falso status quo
da máscara, a gravata e o paletó:
A letra é mais comprida que um soneto.

Seu canto já foi blues, quase balada;
Foi soul, foi funk e reggae; agora é bala
perdida em tiroteio de emboscada

Xerife do xadrez, você não cala:
leva a periferia pra parada,
de sola entra no som da minha sala.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Guess who’s coming to dinner?

A Besta voltou! E com uma bagagem cultural pesada. É clichê, mas é verdade: a Europa é o berço da civilização ocidental. Foi lá que Miles Davis pela primeira vez provou o gostinho do reconhecimento. O mesmo aconteceu com Jimi Hendrix, e outros tantos. Não à toa que o velho continente produziu tanto nos últimos séculos.

Logo na chegada, no aeroporto de Lisboa, um emocionado aperto de mão num simpático Herbie Hancock. Para contar pros meus netos. Isso porque eu vinha falando nele nas semanas anteriores. (Ah, em Barcelona ainda ia rolar o reencontro histórico de Chick Corea e John McLaughlin. Desde Bitches Brew os dois não tocavam juntos. Pena que tivemos de seguir o rumo. Torcer pra esse show passar no Brasil).

Ao longo da trip foram muitos museus: renascimento, gaudiísmo, futurismo, surrealismo, cubismo, vangoghísmo, expressionismo, abstratismo, modernismo... O que você pensar a Europa oferece à preços convidativos, pelo menos para os europeus. Acesso direto à matriz.

E é assim mesmo como lhe contaram: tudo muito lindo, limpo, simples e seguro. As coisas funcionam, os policiais são educados, as criancinhas falam francês, as pessoas pedem licença, os gatos ficam parados nas vitrines e as bicicletas de Amsterdam são decoradas com flores, no melhor estilo dutch de se viver.

A única coisa ruim foi o frio, justamente na Holanda. Ainda bem que existem os aquecedores internos. Mas haja saco para colocar todas as roupas da mala e depois ter que tirar no primeiro bar, pra depois colocar tudo de novo.

Voltar e rever os amigos é a parte fácil, o difícil é trabalhar pra pagar o cartão de crédito.
Ps: Agradecimentos especiais à Mari e ao Carlinhos, que mostraram do que a verdadeira Barcelona é feita. Sem palavras para descrever minha gratidão.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

QUERIDOS LEITORES:

A Besta dá um tempo nas atividades geométricas para tirar merecidas férias.

Não me procurem, pois estarei longe da caverna quadrada.

Volto em novembro.

Aos que ficam um forte abraço, uma mordida no crânio e um beijo no cérebro.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Entre o Silêncio e a Brisa: O Quinteto Perdido de Miles Davis.

Fevereiro de 1969. Logo depois de gravar a pedra fundamental do fusion* – In A Silent WayMiles Davis resolveu dar uma enxaguada em sua numerosa banda de estúdio e sair em turnê de divulgação do mais recente trabalho. Para desespero dos puristas, o novo disco escancarava de vez o romance extraconjugal do trompetista com o rock, ainda que soasse calmo e pacífico (principalmente na faixa-título). A obra antecipava as mudanças por vir. E essas transformações começaram a ser sentidas também nos shows – com “standards” substituídos cada vez mais rápidos por novas composições originais, inclusive de novos parceiros.

Na verdade, as saídas do baterista Tony Willians e do baixista Ron Carter – depois das gravações de In A Silent Way e Filles de Kilimanjaro, respectivamente – abriram o espaço para a chegada de jovens músicos. Estes, iam se acumulando em ensaios e revezando-se nas gravações (no melhor espírito comunitário da época). E Miles gostava daquelas novas figuras cabeludas, faziam-no sentir-se rejuvenescido. Não que ele precisasse. Apesar de ter entrado na casa dos 40, estava no auge da forma física, cultivando o corpo à base de extenuantes treinos de boxe e um perigoso coquetel de drogas (legais e ilegais). Pra poucos.

Ao vivo, resolvera voltar ao consagrado esquema do quinteto de jazz clássico: com dois instrumentos de sopros e três na seção rítmica. Mas de clássico o grupo não tinha nada. Pelo contrário. Queriam quebrar a barreira do som sem precisar entrar num caça militar. Os próprios insistiam em serem classificados como uma banda de rock. Só que não se encaixavam bem nessa categoria. Quer dizer, em nenhuma. No mês março de 1969, depois de quase quatro anos, o The Miles Davis Quintet pisava novamente em um palco em Nova Iorque. Só que nesse meio tempo tudo havia mudado. De um tipo de azul para as cores psicodélicas.

Dentro da mitologia milesniana esse grupo ficou conhecido como o “The Lost Quintet”(ou “The Third Great Quintet”, para os mais entusiasmados) e era formado pelo sempre inspirado Wayne Shorter (sax), o calculista Chick Corea (teclado), o cativante Dave Holland (baixo) e o feroz Jack DeJohnette (bateria). O pertinente apelido deve-se ao fato da formação nunca ter entrado no estúdio para gravar um disco como quinteto, pois só trabalharam juntos em colaboração com outros músicos, em sessões com o próprio trompetista. Assim, durante muito tempo, não houve outro registro senão a prejudicada memória dos fãs.

Em pleno verão de 69, seis meses depois de gravar o último álbum, um grupo ainda maior de músicos trancou-se no estúdio para conceber a obra-prima do fusion – e o segundo disco mais vendido do artista – Bitches Brew. Muitas das composições gravadas surgiram em ensaios e improvisações do novo quinteto, durante as apresentações na primavera anterior. O grupo fixo começava a dar bons frutos. Resultado da química explosiva entre a sólida cozinha e a beleza caótica dos metais. Confluência de ritmos direcionada para além dos limites prováveis. Com Bitches Brew, Miles atinge seus objetivos artísticos quando resolveu embarcar pela primeira vez no colorido ônibus da contracultura.

Enquanto esperava o álbum chegar as lojas era hora de jogar-se novamente nas curvas da estrada. E o grupo não poderia ser outra senão o Quinteto Perdido. Durante meses trabalharam sem parar. Apresentaram-se nos maiores festivais de música e casas de shows da época – ao lado de bandas de rock – para um público muitas vezes alheio à história musical do trompetista. Em abril de 1970, com o lançamento do disco no mercado americano, veio a consagração.

Começo dos anos 2000. Sai It’s About That Time: Live from Fillmore East, a fita perdida do Quinteto Perdido. Gravado em março de 1970, o repertório traz músicas dos últimos discos até então: In A Silent Way e Bitches Brew (ainda que o último não tivesse sido lançado). Um adendo importante: nesse concerto (como em muitos outros) a banda apresenta-se como um sexteto, já que conta com a participação especial do percursionista brasileiro Airto Moreira. Ainda assim, é o mais perto que podemos chegar desse tesouro enterrado sob a areia do tempo.

O registro ao vivo merece destaque por trazer a despedida de Shorter como membro regular da banda (representando também o fim do Quinteto Perdido). O saxofonista saiu para montar o grupo Weather Report, juntamente com o pianista Joe Zawinul. Os outros colegas também aproveitaram o momento para formarem seus próprios conjuntos, tendo Miles (e o fusion) como norte criativo.

O Quinteto Perdido, mesmo com um breve período de existência, conseguiu deixar profundas marcas na história da música. Hoje, podemos notar a influência do conjunto (e das bandas posteriores do trompetista) tanto na música eletrônica quanto no rock e no hip-hop. A polêmica “fase elétrica” foi redimida por DJ’s e curiosos em geral; e atualmente é objeto de culto de admiradores dos mais variados estilos musicais. Miles Davis era um cara do futuro, um visionário. O distanciamento acabou provando o valor de suas experimentações.

*O fusion, verdade seja dita, nasceu uns dois anos antes, no disco de Cannobal Adlerey, 74 Miles Away (1967), em faixas como Directions (composição de Zawinul). Mas devemos frisar que os experimentos elétricos de Miles são praticamente da mesma época, remetendo ao "Segundo Grande Quinteto", e podem ser apreciados em álbuns como Nefertiti (1967), Miles in the Sky (1968) e Filles de Kilimanjaro (1968). Eu chamo In A Silent Way de "A" pedra fundamental porque foi o primeiro disco de um artista de jazz gravado inteiramente com instrumentos plugados. Entendido? Então firmeza.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O Retorno da Vampira

Numa dessas boiadas da vida, assisti ontem ao ensaio aberto da remontagem de O Mistério de Irma Vap – que estréia amanhã. A peça, encenada no Brasil pela primeira vez em 1986, é um das maiores bilheterias do teatro no país. Marília Pêra volta para dirigir o espetáculo numa estrutura semelhante ao original bem-sucedido. O texto, por exemplo, continua o mesmo (com pequenas alterações). A grande mudança é a substituição da dupla de atores. Saem Ney Latorraca e Marco Nanini para a entrada de Cássio Scapin e Marcelo Médici. O que poderia ser um peso (substituir tais monstros), transformasse em descontração e eficiência; provando que os novos protagonistas têm o fôlego necessário para encarar o desafio. Médici está impagável e lembra muito o Nanini em cena. Scapin teve alguns problemas, mas nada que ele não consiga resolver em duas semanas em cartaz. Ainda sobram-lhe carisma e competência. A química entre ambos também tende a melhorar. E dá-lhe troca de roupas, humor inventivo, entra-e-sai frenético, piadas históricas... tudo hilário. É pra chorar de rir. Eu desejo merda pra eles, mas na real nem precisa. É jogo ganho antes de começar.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

#White Light#

#Raros amigos, esqueçam a parafernália hollywoodiana de Batman e sua suposta filosofia embutida (ou enlatada). O filme do ano é outro e já estreou no Brasil. Das trevas fez-se a luz da cegueira no novo longa assinado por Fernando Meirelles (o nosso Spielberg, hehe).#

#Blindness é profundo como um poço de merda. Calma, isso é um grande elogio. Um daqueles filmes que nos fazem refletir sobre a condição humana - e como somos bestas disfarçadas de deuses. É intenso, perturbador, sinistro. Consegue emocionar sem apelar. A catarse acontece, mas de maneira gradual... digestiva.#

#“Pra variar” a equipe técnica faz um trabalho invejável. Direção sem comentários. Roteiro incisivo, metódico, quase sem falhas. A edição, mesmo com tantos problemas, mostra-se segura (e sinceramente, não sei se quero assistir a versão sem cortes). Os efeitos sonoros são uma obra à parte, incríveis! Só a atuação de alguns poucos atores deixa a desejar, e mesmo assim ofuscados por grandes interpretações.#

#Lembra daquele vídeo da internet? Então, fiquei com a impressão de que os cegos somos nozes. Tateando a imensidão branca, lendo o mundo em braile.#

#Ah, antes que eu me esqueça, o homem por trás da história, no alto de seus 85 anos, acabou de criar um blog. Isso mesmo, José Saramago virou bloguero. Visite aqui: http://caderno.josesaramago.org/ #

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Queima!

O cultuado quadrinista americano, Charles Burns, expõem pela primeira vez suas ilustrações em uma mostra individual. Como está acontecendo lá em Nova Iorque, vou deixa-los com o link das obras. O traço expressionista de Burns ratifica porque ele é considerado um dos melhores da atualidade (já faz tempo). Ah, reparem nos desenhos (antigos) que ele fez dos mestres William Burroughs e Robert Crumb, no final da página.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

babaloo

eu sou a chama da vela do santo
eu sou como um touro correndo no campo
eu sou o pé pisando na terra
eu sou como a bomba estourando na guerra
eu sou o bebê chorando por peito
eu sou o homem velho morrendo no leito
eu sou o trovão assustando a cadela
eu sou a rosa, o cravo e a canela

babaloo, babaloo, babaloo aê

balango, balango, balango na terra
balango mas não caio e geralmente ganho a guerra


André Abujamra

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

notas premiadas

O Vídeo Music Awards (VMA), premiação da MTV americana, aconteceu ontem em Los Angeles comemorando 25 anos de existência. E se levarmos em conta a história do astronauta de prata, e os artistas que já se apresentaram nas cerimônias anteriores, a edição desse ano deixou muito a desejar. Os vencedores são sempre os mesmos, se revezando nas principais categorias. E as apresentações ao vivo são sempre a mesma m...., muita produção e pouca alma. Estúdios enormes, painéis gigantes, dólares e mais dólares, e pra que? Pra bandas de segunda linha, rappers meia boca, adolescentes que mal saíram das fraldas, artistas de caráter duvidoso. Enfadonho? Magina. Mas parece ser a regra do lado de lá.
***
E o Festival de Veneza concedeu o Leão de Ouro para “The Wrestler”, novo longa de Darren Aronofsky (Pi, Réquiem, A Fonte da Vida). A história narra as dificuldades de um lutador de luta livre tentando retomar a carreira profissional. O lendário Mickey Rourke (Rumble Fish, Angel’s Heart) é o protagonista do filme que deve lhe render uma indicação ao Oscar de melhor ator. Especulação? Magina.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A resposta do post anterior


Como nascem as águas-vivas?


Assisti ontem ao surpreendente documentário A Invasão das Águas–Vivas. Transmitido pelo canal pago NatGeo, o filme mostra a misteriosa explosão da população de águas-vivas nos últimos anos (com efeitos sentidos tanto no Japão quanto no Brasil). Para os cientistas, o aumento da temperatura dos oceanos – devido ao aquecimento global – está ocasionando uma mudança na memória genética dessas estranhas criaturas. A maior incidência de “zonas mornas” nos mares facilita sua proliferação, e a poluição pode ser outro fator favorável. O documentário aproveita para denunciar que o buraco é mais embaixo. O alerta fica aos pesqueiros japoneses que lançam suas redes para “pescar” nomuras gigantes (ao chegarem na superfície são esquartejadas a golpes de foice). No momento da morte, porém, na tentativa de preservar a espécie, jogam no mar milhões de óvulos e espermatozóides que serão fecundados, gerando centenas de milhares de outras águas-vivas. Ao final da fita fiquei com a bizarra sensação de ter assistido uma narrativa de terror ou ficção científica apocalíptica. Nada disso. Trata-se apenas de nossa nova realidade. Sinistro.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Jaya Ganesha


Está sendo comemorado hoje (no Brasil, não na Índia) o nascimento de Ganesha.
O Festival Chaturthi (celebrado no quarto dia do mês lunar de agosto/setembro) é considerado o mais alegre de todas as festividades hindus; e o deus-elefante um dos mais queridos da religião.

vakratunda mahakaya suryakotisamaprabha
nirvighnam kuru me deva sarvakaryesu sarvada


Ó Senhor, que possui um corpo imenso, do tamanho do universo, que tem adorno de uma tromba curva, que é a luz do conhecimento igual a mil sóis! Sempre, em todos os meus empreendimentos, me faça livre de todos os obstáculos.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Um conto para Gotham (parte 2)

A mente é um macaco bêbado – e em chamas – depois de levar uma picada de cobra

(provérbio indiano).
***
... No caminho para o trabalho, ao acaso, lembrou-se do encanto do desconhecido e das PRIMEIRAS vezes que foi jogado naquela montanha-turca: o sobe e desce (emoção barata). Sua testa insistia em reclamar, formigando entre ódio e prazer. A adrenalina só veio quanto quase bateu as botas... Na esquina a placa dizia: Comida por quilo (refeição barata). Nem reparou. Sua cabeça estava à milhas de distância (clichê barato).
Desceu do carro apressado, visualizando o rato escondido dentro da sua toca. Um táxi o seguia de longe. Nem reparou. Não era a primeira vez que isso acontecia. O zunido no ouvido avisa da chegada de energias ocultas. não era a primeira. nem reparou.
Hoje não quero saber de nada. vou sair à noite. me debruçar sobre arvores de vidro. galhos afiados apontados para cima. Pelo menos tinha algo para ajuda-lo esquecer. amnésia induzida. lembranças retorcidas no calor do asfalto.
A força de sua mandíbula abria portas & As janelas fingiam que respeitavam sua arrogância. Quase-Excelência. Último andar. Desceu do elevador cumprimentando os funcionários. Não olhava nos olhos/ olhava pra baixo. massa cinzenta reduzida à fumaça opaca, reflexão estúpida, blankspace/backspace. As pessoas admiravam seu dinheiro. Quem não iria querer um pedaço?
Entra na sala GRANDE: quadros, couro, bronze, líquido...
Liga a tela: - Hoje temos a presença do ilustre pianista Alexis (troca) ... a bolsa de valores abriu o dia em ligeira alta impulsionada pela taxa de juros e mostra a confiança do mercado...(troca) – Nosso próximo convidado é um artista talentoso e um ser humano incrível...(troca)
Remexendo as gavetas do escritório, cavando por entre dúzias de flores perdidas. Uma imagem, duas imagens.
Porquesquecemos? Se lembrássemos de tudo nosso cérebro entraria em colapso nervoso. Esquecer é natural e saudável(troca) Achei! o canhoto, consumidor lesado. fila de banco. não espera sentado. 30 minutos. no máximo. preciso pensar sobre esse caso. (troca). Levanta rapidamente. olhar pela janela: horizonte inerte. tédio latente. olhar para baixo. sem cerimônia/sem amônia. rinocerontes, moscas voando coladas ao chão. Maritacas não se misturam facilmente ao oceano salgado. Daqui de cima as coisas parecem mais bonitas do que realmente são. Quanto mais perto você chega, mais feia fica a coisa. é a lei da vida. não me pergunte porque. mais interessado na escrita dos limites do que nos limites da escrita.
- hora do almoço. O estomago chorando a fome pela boca. Carvão moído & Petróleo pra rebater. (troca) (pela tela): - Bárbara, me liga com o Ligeirinho. japonês ou chinês? – Escolhe pra mim alguns pedaços de sushi levemente ressecados (troca)...